Ainda que tenhamos milhares de obras de imensa virtuosidade em nosso favor, nossa confiança em sermos ouvidos deve estar fundada na misericórdia de Deus e em Seu amor pelos homens. E ainda que estejamos no cume da virtude, é por misericórdia que seremos salvos.
O fato de Pedro, de entre todos os passageiros da embarcação, ousar responder e pedir ao Senhor que lhe dê ordem para ir por sobre as águas até Si, indica já a disposição do seu coração no momento da Paixão. Momento em que, sozinho, seguindo os passos do Senhor e desprezando as agitações do mundo, comparáveis às do mar, O acompanhou com igual coragem para desprezar a morte.
Neste dia apareceu misteriosamente no Monte Tabor a condição da vida futura e do Reino da alegria. Neste dia, os mensageiros da Antiga e da Nova Aliança reuniram-se de forma extraordinária em torno de Deus na montanha, portadores de um mistério cheio de paradoxo. Neste dia, desenha-se no Monte Tabor o mistério da Cruz que, pela morte, dá a vida: assim como Cristo foi crucificado entre dois homens no Monte Calvário, assim também Se apresentou na majestade divina entre Moisés e Elias. E a festa de hoje mostra-nos este outro Sinai, montanha ó quão mais preciosa que o Sinai, pelas suas maravilhas e os seus eventos, que ultrapassa, pela teofania que nela se deu, as visões divinas figuradas e obscuras.
O Emanuel, Deus-conosco, consta de duas realidades: divindade e humanidade. Mas é um só Senhor Jesus Cristo, um só verdadeiro Filho por natureza, ainda que ao mesmo tempo Deus e homem. Não é apenas um homem divinizado, como aqueles que pela graça se tornam participantes da natureza divina; mas é verdadeiro Deus que, por causa da nossa salvação, Se fez visível em forma humana.
Por misericórdia, Tu nos lavaste no Sangue; por misericórdia, quiseste conversar com as criaturas. Ó Louco de amor! Não te bastou encarnar-te, mas quiseste também morrer!
Ó meu Deus, fazei que cada batida de meu coração seja uma súplica para alcançar graça e perdão para os pecadores. Que cada uma de minhas respirações seja um apelo à Tua infinita misericórdia, que cada olhar meu atraia para Vós as pessoas que eu fitar e lhes revele o Teu amor. Que o alimento de minha vida seja trabalhar sem descanso pela Tua glória e pela salvação das almas. Amém.
Aproxima-se o Tríduo Pascal. Nós, católicos, meditamos mais profundamente o maior evento da história da humanidade: Cristo se sacrifica por nós, na cruz, consumando o projeto de Salvação de Deus.
“Amou-os até o fim”. Resgatou-nos das trevas de nosso egoísmo, carregou consigo todas as nossas amarguras, sentiu na carne a dor de nossas escolhas erradas, de nosso passado tempestuoso.
Em um ocidente cada vez mais descristianizado e até mesmo intolerante ao seu Senhor, lembremo-nos que Cristo morreu desprezado, caluniado e abandonado. Se as pessoas o abandonam hoje, o abandonaram em seu tempo. Se as pessoas hoje o desprezam, o fizeram naquele momento de pavor. Se Cristo foi vítima de mentiras e ardis, também o é hoje Sua Igreja, Seu Corpo Místico.
O homem torna-se cada vez mais indiferente a Deus, mas sua angústia só aumenta, enquanto Deus mantém-se em silêncio eloqüente, tal como no Sábado Santo. O ocidente desmorona e não se dá conta disso, tal como diante da perfídia, do escárnio e da indiferença o Cristo era torturado e morto sem que aquelas pessoas não tivessem a menor idéia do que estava acontecendo.
O abandono do cristianismo, para o ocidente, significa perder o próprio chão. O que vem depois é a barbárie. A beleza e o encantamento se esvaem, só restando a busca desenfreada por qualquer tipo de entorpecente que alucine o homem e mitigue a dor advinda do pecado original.
Sem Cristo, perderemos a beleza da vida e a própria noção do que seja existir. Dizendo de uma maneira mais clara, perderemos a alegria de viver. Perderemos a doçura e a gratuidade do amor, que vêm Dele e não podem vir de mais ninguém.
Que esse Tríduo Pascal seja uma oportunidade para nos aproximarmos de Cristo e da beleza que dele advém. Que seja um momento para refletirmos sobre a beleza do seu rosto tão machucado, seu corpo chagado e destruído, seu semblante sempre sereno. Dessa tragédia, emerge a redenção de nossos pecados e nossa salvação. Desse desastre, surge a inspiração para obras que tocam profundamente o coração de qualquer pessoa minimamente ainda sensível à beleza. E a magnitude de “A Paixão segundo São Mateus”, de Bach, transmite-nos hoje a mensagem do que estamos deixando de contemplar ao abandonar Cristo sozinho em sua Paixão redentora: estamos desistindo de nós mesmos, vivendo em trevas, sob o risco da escuridão eterna.
Vinde, subamos juntos ao monte das Oliveiras e corramos ao encontro de Cristo, que hoje volta de Betânia e se encaminha voluntariamente para aquela venerável e santa Paixão, a fim de realizar o mistério de nossa salvação.
Como verdadeiro homem, choras sobre Lázaro; como verdadeiro Deus, ressuscitas pela tua vontade aquele que estava morto há quatro dias… Tem piedade de mim, Senhor; muitas são as minhas transgressões. Traz-me de volta, te suplico, do abismo dos males em que me encontro. Foi por ti que eu gritei; escuta-me, Deus da minha salvação.
Não foi por ter necessidade dos nossos serviços que o Pai ordenou que seguíssemos o Verbo: foi para nos garantir a salvação. Pois seguir o Salvador é tomar parte na Sua salvação, tal como seguir a luz é tomar parte na luz.
Jesus é o instrumento concreto da misericórdia do Pai, que vai ao encontro de todos, levando a consolação e a salvação, e deste modo manifesta o juízo de Deus. Os cegos, os coxos, os leprosos e os surdos recuperam a sua dignidade e já não vivem excluídos por causa da sua enfermidade, os mortos voltam a viver, enquanto aos pobres é anunciada a Boa Notícia. E esta torna-se a síntese do agir de Jesus, que desta forma torna visível e tangível a ação do próprio Deus.
Zaqueu abandonou a lei antiga; subiu a uma árvore inerte, símbolo da surdez do seu espírito. Mas esta ascensão é o símbolo da sua salvação. Ele abandonou a sua baixeza, subindo à árvore para ver a divindade nas alturas. Nosso Senhor apressou-Se a convidá-lo a descer daquela árvore ressequida que era a sua antiga maneira de ser, a fim de que ele não permanecesse surdo. O amor a Nosso Senhor que nele ardia consumiu nele o homem velho, para nele moldar um homem novo.
Hoje nasceu a Virgem de quem quis nascer a salvação de todos, para dar àqueles que nasciam a possibilidade de renascerem para a vida. Hoje nasceu a nossa nova mãe, que apagou a maldição de Eva, nossa primeira mãe. Assim, através dela, somos herdeiros da bênção, nós, que por causa da primeira mãe tínhamos nascido sob a antiga maldição. Sim, Ela é na verdade uma nova mãe, que dá à luz um filho através dum prodígio novo, permanecendo virgem, Ela é a que deu ao mundo Aquele que criou o mundo.
Com ânimo verdadeiramente materno para conosco e ocupando-se da nossa salvação, Ela, que pelo Senhor foi constituída rainha do céu e da terra, toma cuidado de todo o gênero humano, e tendo sido exaltada sobre todos os coros dos anjos e as hierarquias dos santos do céu, e estando à direita do seu unigênito Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor com as suas súplicas maternas impetra com eficácia, obtém quanto pede, nem pode deixar de ser ouvida.
Aqueles que vêm a Deus apoiando-se n’Ele com o desejo de serem salvos são verdadeiramente salvos: é a inspiração divina que os faz conceber esse desejo de salvação; é iluminados por Aquele que os chama que chegam ao conhecimento da verdade.
Preciso salvar a minha alma, isto é, ganhar o Céu, evitar a eternidade do inferno. Não há meio-termo. Salvar a minha alma é o fim da minha criação, da minha redenção, é o fim da minha vida.
As riquezas, para os néscios, são um alimento para a desonestidade; no entanto, para os sábios, são uma ajuda para a virtude; a estes, se lhes oferece uma oportunidade para a salvação, no caso dos outros provoca um tropeço que leva à ruína.
A bondade divina é semelhante a um mar sem fundo nem limites, que me chama ao descanso eterno por um tão breve e pequeno trabalho; que me convida e chama ao céu para aí me dar àquele bem supremo que tão negligentemente procurei, e me promete o futuro daquelas lágrimas que tão parcamente derramei.
Sei que sois bem dispostos com fé indefectível e credes plenamente no nosso Senhor, por nós penetrado na carne por cravos – nós somos fruto desta bendita e divina paixão! – para elevar, com a Sua ressurreição, um estandarte pelos séculos e reunir no corpo uno da Sua Igreja os Seus santos e os Seus crentes. Ele suportou todos estes sofrimentos por nós, para que fôssemos salvos; e sofreu realmente, como realmente ressuscitou! Eu sei e creio que, mesmo depois da ressurreição, Jesus Cristo era na carne. E quando Se aproximou daqueles que estavam ao redor de Pedro… tocaram-nO e, ao contato com a Sua carne e o Seu espírito, creram! Por isso eles desprezaram a morte e triunfaram sobre ela.
O trabalho e o sofrimento por Deus sejam sempre a vossa glória, e das obras e das dores que padeceis, Deus seja a vossa consolação na terra e a vossa recompensa no céu.