História do Estado Vaticano e a Segunda Guerra Mundial

Hoje, Zenit noticia o congresso “Um pequeno território para uma grande missão”, que começou ontem, no Palácio Lateranense de Roma. O evento, organizado pelo governo da Santa Sé, acontece até amanhã e faz parte das comemorações dos 80 anos do nascimento do Estado Vaticano.

A fala do cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado de Bento XVI, chamou-me a atenção em um ponto específico: o Vaticano e a Segunda Guerra Mundial. Transcrevo aqui o trecho:

O secretário de Estado Vaticano fez um percurso pelos principais fatos históricos que a Santa Sé teve de enfrentar desde seu nascimento como Estado independente.

Recordou assim que apenas dez anos depois de sua fundação, estourou a 2ª Guerra Mundial, período durante o qual a Santa Sé desenvolveu «uma intensa ação de promoção da paz e da caridade, mas com notáveis limitações».

«Pensemos no fato de que os diplomatas acreditados na Santa Sé dos países em guerra com a Itália tiveram de abandonar Roma ou que a própria ação eclesial, diplomática e caritativa da Santa Sé estava condicionada pelo controle do Estado Italiano», assinalou o cardeal.

O purpurado afirmou que, com o reconhecimento da soberania territorial, o Estado Vaticano pôde interagir também com representantes diplomáticos na guerra com a Ásia, que foram acolhidos pela Santa Sé.

Também afirmou as obras de caridade que o Papa Pio XII pôde desenvolver em toda a Europa durante a guerra, «socorrendo materialmente as populações afetadas e permitindo contatos entre aqueles a quem a guerra havia separado».

Roma foi ocupada militarmente desde setembro de 1943 até junho de 1944; «o Estado da Cidade do Vaticano se encontrava rodeado de um poder político-militar, o Reich alemão, com o qual a Santa Sé tinha muitos conflitos abertos», destaca o purpurado.

Recordou também os lugares de refúgio que serviram para albergar muitas vítimas durante a 2ª Guerra Mundial: o Seminário Pontifício Maior de Latrão, a Abadia de São Paulo Fora dos Muros e as Vilas Pontifícias de Castel Gandolfo, assim como mosteiros, conventos, institutos e paróquias de Roma.

Para ler o texto na íntegra, clique aqui.

O Papa Pio XII é constantemente criticado por um suposto silêncio diante das atrocidades nazistas. Alguns chegam ao cúmulo de acusá-lo de ser cúmplice de Hitler, dizendo que o Papa não fez nada em prol dos perseguidos pelo regime alemão, especialmente os judeus.

Embora de maneira tímida, o cardeal lembrou das limitações das ações do Papa diante da terrível realidade que a Igreja tinha que encarar. É um primeiro passo para se refletir sobre o que realmente poderia ter sido feito – e o que foi feito pela Igreja para ajudar os refugiados e os ameaçados pela perseguição.

Assim que for possível, prometo publicar aqui em JORNADA CRISTÃ alguns textos muito interessantes sobre o assunto.

Papa Bento iniciando ano movimentado e histórico

Por Edward Pentin.

Este ano reserva muitas surpresas para o Papa Bento XVI. O líder espiritual dos 1,2 bilhões de católicos do mundo deve embarcar em duas viagens papais históricas, fazer mudanças significativas nas lideranças do Vaticano, e encontrar-se com Barack Obama, no que pode vir a ser um encontro complicado.

O Pontífice, que completará 82 anos de idade no próximo dia 16 de abril, viajará pela primeira vez como Papa à África no mês de março, rumo a Camarões para fazer parte das preparações para um encontro de bispos africanos. Em seguida, partirá para Angola para celebrar os 500 anos da evangelização do país.

O Papa pode esperar uma recepção calorosa num continente onde o catolicismo está crescendo rapidamente e muitos estão a aderir ao sacerdócio católico. Mas a África, continuamente afetada pela pobreza e pelos conflitos, é de grande preocupação para a Igreja, levando o Vaticano a informalmente declarar 2009 como o Ano para a África. Como fez no Natal, o Papa deverá chamar a atenção especificamente para os conflitos e sofrimentos no Zimbabwe, no Congo e na Somália.

Sua visita também deverá reacender a controvérsia sobre a proibição da Igreja do uso de preservativos como método para se evitar o vírus HIV. O Papa não mudará o ensinamento da Igreja nesse assunto, mas ao invés disso provavelmente deverá salientar a razão pela qual a Igreja mantém seus ensinamentos e que organizações católicas assistem aproximadamente um quarto de todas as vítimas da AIDS no mundo.

As atenções então se voltarão para a viagem histórica seguinte de Bento XVI, à Terra Santa. O Vaticano não confirmou oficialmente a visita e, se os conflitos continuarem em Gaza, provavelmente será adiada. De qualquer maneira, o Vaticano diz que o planejamento para a viagem continua, e fontes dizem que está agendada para acontecer entre os dias 8 e 15 de maio. Incluirá paradas em Aman, Tel Aviv, Jerusalém, Nazaré e Belém. O biógrafo papal George Weigel diz que provavelmente será o ponto alto do ano para o Papa.

Sem dúvida, a visita será uma das mais delicadas para Bento XVI. Fontes dizem que o pontífice alemão tem um encontro marcado com membros da Autoridade Palestina (que não inclui o Hamas) em Belém, e visitará o memorial do Holocausto em Jerusalém. Ele fará muitos apelos pela paz na região e em solidariedade com os cristãos da Terra Santa, que enfrentam muitas provações e emigram em número elevado. O Vaticano espera que a viagem do Papa também alivie recentes tensões com israelenses e líderes judeus. A ação do Papa Pio XII para salvar judeus durante a Segunda Guerra Mundial mantém-se como uma questão ardentemente controvertida entre alguns líderes do judaísmo.

Além das viagens do Papa, novos escritos papais são aguardados para este ano. A primeira e muito aguardada encíclica social de Bento, “Caritas in Veritate” (“Amor na Verdade”), provavelmente será lançada na primeira metade do ano (pré-vendas já estão sendo feitas online em sites como o Amazon.com). O documento, endereçado a todos os católicos, oferecerá uma crítica moral para a atual crise financeira. É esperada para ser convenientemente “ecológica”, enfatizando a administração responsável da criação, mas sempre com uma visão antropocêntrica que coloca a dignidade humana e o bem-estar, não a natureza, no cerne da questão.

O Papa, um leitor voraz e autor talentoso, deve também publicar o segundo volume de seu livro “Jesus de Nazaré”. O livro, cujo primeiro volume foi publicado em 2007, oferecerá suas próprias análises e compreensões teológicas sobre a Paixão e Ressurreição de Jesus.

Este ano também verá mudanças significativas em muitos altos cargos no Vaticano. Pelo menos três cardeais devem se demitir, já que chegaram ou excederam a idade limite de 75 anos. Em decorrência disso, e da aposentadoria de outros cardeais ao redor do mundo, a necessidade de um consistório (quando o Papa formalmente indica novos cardeais) se tornará premente. Comentaristas acreditam que isso deverá acontecer na primavera (entre setembro e dezembro).

O Papa também estará empenhado em assegurar que continuem os até agora significativos progressos nas relações entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa. Um novo patriarca ortodoxo russo será escolhido em junho, em seguida à morte inesperada do patriarca Alexis II, no final do ano passado. O escolhido poderá renascer as esperanças de que aconteça o primeiro e histórico encontro entre um Papa e um patriarca, desde que as duas igrejas quase mil anos atrás se dividiram.

Quanto aos ilustres visitantes que o Papa deverá receber, a visita de Barack Obama em julho é a mais aguardada. O presidente eleito comparecerá ao encontro do G8 na ilha italiana de Maddalena e espera-se que ele inclua em seu trajeto uma passagem pelo Vaticano. Tendo em vista sua conhecida posição sobre aborto e outras questões pró-vida, o encontro de Obama com o Pontífice poderá se tornar embaraçoso.

Mas mesmo que os dois não se encontrem, comentaristas dizem que a nova administração e a Igreja provavelmente se enfrentarão. “Se a administração Obama tentar remover as cláusulas de consciência que protegem instituições e profissionais de saúde católicos nos Estados Unidos [da obrigação de realizarem abortos], podemos muito bem ver um desafio papal à nova administração”, Weigel diz. Ele acredita que tal confronto é provável “de qualquer jeito”, tendo em vista o quanto a administração Obama irá se esforçar no campo dos assim chamados “direitos reprodutivos” junto às Nações Unidas e em outros países.

Ainda assim, isso não impedirá Bento XVI de reunir-se com Obama se a oportunidade surgir. Um dos pontos fortes deste Papa é sua disposição em ouvir todas as opiniões, mesmo aquelas com as quais discorde. Para o Papa Bento, uma discussão intelectual honesta supera qualquer medo de controvérsia. Por isso, não se surpreenda se, como em anos anteriores, este Pontífice voltar a ser manchete em virtude de debates pragmáticos e provocativos.

Fonte: Newsmax.com. Tradução e adaptação de Matheus Cajaíba. Para ler o texto original em inglês, clique aqui.